Antes da viagem: como se preparar para encontrar free flow no caminho.
Decidir entre TAG, aplicativo da concessionária ou pagamento avulso. Conhecer o trajeto. Confirmar quais trechos têm pedágio eletrônico no portal da ANTT. Preparar o veículo. Critérios objetivos por perfil de uso, sem promessa.
A primeira coisa que mudou no pedágio brasileiro com o free flow não foi a tecnologia. Foi o momento da decisão. Antes, o motorista decidia o meio de pagamento na hora — chegava na cabine, abaixava o vidro, escolhia entre dinheiro, cartão ou TAG. Agora, a decisão acontece antes de pegar estrada. Quem chega no pórtico free flow sem ter pensado no assunto vai pagar de qualquer jeito, mas pode descobrir só semanas depois e por canais que talvez nunca tenha usado.
Este capítulo é sobre o que fazer antes de partir. Não é sobre vender TAG, não é sobre recomendar marca. É sobre os critérios que ajudam a decisão e os procedimentos que evitam dor de cabeça depois.
Decisão 1 — qual meio de pagamento
O primeiro ponto é decidir como você vai pagar a tarifa quando passar pelo pórtico. Há quatro caminhos legítimos, todos previstos na Resolução ANTT 6.079/2026, que obriga as concessionárias a oferecer múltiplas formas:
Quem viaja muito: TAG eletrônica
A TAG é um adesivo eletrônico — pequeno retângulo no para-brisa, sem bateria, sem fios — vinculado a uma conta financeira. Em qualquer pedágio coberto, o pórtico lê o código da TAG e debita o valor. Funciona tanto em free flow quanto em cabine física antiga.
Quem se beneficia mais:
- Motoristas que viajam por rodovia mais de uma vez por mês.
- Quem mora ou trabalha próximo a um trecho de pedágio (descontos progressivos podem se aplicar).
- Quem viaja em horários de pico em rodovias com cabine remanescente e quer evitar fila.
- Quem prefere previsibilidade financeira em fatura mensal consolidada.
Quem deve pensar duas vezes:
- Motoristas que pegam rodovia menos de uma vez por mês — a mensalidade pode pesar mais que o desconto compensa.
- Quem está por contratar um plano e ainda não comparou os custos. Operadoras autorizadas pela ANTT cobram diferente. Algumas oferecem isenção de mensalidade para correntistas de bancos parceiros — benefício que muita gente já tem disponível e não usa.
A TAG funciona em qualquer pórtico do país, independentemente da operadora. A interoperabilidade é exigência regulatória da ANTT, mantida desde a Resolução 4.281/2014. Não há “TAG melhor para tal rodovia” — tecnicamente, todas funcionam em todas. A escolha entre marcas (Sem Parar, ConectCar, Veloe, Move Mais, Taggy, entre outras associadas à Abepam) é decisão de plano comercial.
Cooperativas como o Sicredi oferecem TAG a associados como produto vinculado à conta corrente. Outras instituições financeiras adotam modelo equivalente. Vale verificar antes de contratar.
Quem viaja em rotas regulares: aplicativo da concessionária
Caminho menos conhecido, mas oficial e quase sempre gratuito. Cada concessionária mantém seu próprio aplicativo (ou área de cliente no site) onde o motorista cadastra a placa do veículo e um meio de pagamento. A partir do cadastro, toda passagem em pórtico de free flow daquela concessionária é cobrada automaticamente. Funciona como uma TAG — sem o adesivo físico.
Exemplos verificados em maio de 2026:
- App Motiva Rodovias — usado nos trechos da concessionária Motiva (sucessora da CCR RioSP), incluindo a BR-101/Rio-Santos e o trecho da BR-116/Dutra entre São Paulo e Guarulhos.
- App CSG FreeFlow — usado nos trechos da CSG (Caminhos da Serra Gaúcha) nas estaduais ERS-122, ERS-240 e ERS-446.
- App CCR Rodovias — usado em diferentes rodovias administradas por concessionárias do grupo CCR, com pagamento via Pix ou cartão de crédito.
A diferença em relação à TAG: o aplicativo só funciona nos trechos administrados por aquela empresa. Quem viaja por uma rota que atravessa duas ou três concessionárias precisaria, em tese, ter app de todas. Menos cômodo que TAG, mas isento de mensalidade.
Quem viaja esporadicamente: Pix avulso
Caminho de quem não tem TAG, não cadastrou app, e atravessou um trecho de free flow. Ao passar pelo pórtico sem identificação financeira ativa, o registro fica vinculado à placa do veículo no banco de dados da concessionária. Não chega boleto pelos Correios. Não chega SMS de cobrança legítimo. Não chega WhatsApp. Responsabilidade do motorista é identificar a empresa e quitar em até 30 dias.
É a opção mais comum entre quem viaja para a praia uma vez por ano ou para um casamento de família.
Cabine tradicional
Em rodovias federais mais antigas (concessões assinadas antes de 2022), a cabine permanece operando normalmente, com aceitação de dinheiro, cartão de débito, cartão de crédito e Pix por QR Code apresentado na cabine. A Resolução ANTT 6.079/2026 não eliminou cabines existentes — só estabeleceu o free flow como padrão das novas concessões. Concessões antigas com cabines continuam até o fim de seus contratos.
Decisão 2 — conhecer o trajeto antes
O segundo ponto é saber se o caminho que você vai pegar tem free flow. Há três formas de descobrir:
1. Portal oficial da ANTT
O endereço é gov.br/antt/free-flow. A página mantém lista atualizada das rodovias federais com pórticos em operação, dos trechos onde o sistema está sendo implantado, e dos cronogramas previstos. Em maio de 2026, os principais trechos federais em operação:
| Rodovia | UF | Concessionária |
|---|---|---|
| BR-101 (Rio-Santos) | RJ-SP | RioSP / Motiva |
| BR-116 (Dutra, km 204-231) | SP | RioSP / Motiva |
| BR-381 | MG | Nova 381 |
| BR-364 | RO | Nova 364 |
| BR-277, BR-369, BR-373, BR-376 | PR | EPR Iguaçu / EPR Lote 4 |
| PR-090, PR-170, PR-323, PR-445 | PR | EPR Lote 4 |
| ERS-122, ERS-240, ERS-446 | RS | CSG |
2. Sinalização durante a viagem
A Resolução Contran 1.013/2024 padronizou a sinalização. Placas físicas com a mensagem “pedágio eletrônico à frente” aparecem alguns quilômetros antes do pórtico. Atenção redobrada se a viagem é noturna ou em condições de chuva — a placa pode passar despercebida.
3. Site da concessionária
Cada concessionária mantém área dedicada ao sistema. A Motiva (sucessora da CCR RioSP) publica em rodovias.motiva.com.br. A CCR mantém o portal Pedágio Digital. Outras concessionárias publicam em domínios próprios — sempre conferíveis no portal oficial gov.br/antt/free-flow para evitar páginas falsas.
Decisão 3 — preparar o veículo e os documentos
Antes de qualquer viagem longa, há um conjunto de itens básicos que vale a pena conferir — particularmente em rotas com free flow, onde uma multa por evasão pode demorar para chegar. Reunimos abaixo um checklist editorial.
Itens essenciais para uma viagem tranquila
- Documento do veículo (CRLV-e, disponível no app Carteira Digital de Trânsito).
- Carteira Nacional de Habilitação dentro do prazo de validade.
- Placa do veículo limpa e legível, sem reflexos, sujeira ou cobertura. A leitura óptica do free flow depende disso.
- Pneus calibrados conforme manual do veículo, incluindo o estepe. Estepe sem ar não serve.
- Triângulo, macaco e chave de roda — itens obrigatórios pelo CTB.
- Nível de óleo, água do radiador e líquido de freio conferidos.
- Faróis e luzes de freio funcionando — teste antes de partir.
- Decisão sobre meio de pagamento de pedágio tomada (TAG, app ou Pix avulso).
- Trajeto conhecido, com identificação prévia de trechos free flow no portal da ANTT.
- Telefone com bateria carregada e cabo do veículo.
- Contato da seguradora à mão, se houver.
O checklist acima é genérico — não cobre situações específicas como viagem com criança pequena (cadeirinha), com animal de estimação ou para fora do país. Para essas situações, vale buscar orientação adicional em fonte oficial.
Decisão 4 — contas e prazos
Última decisão antes de partir: ter clareza sobre o que vai precisar acontecer depois da viagem se você não estiver com TAG ou app cadastrado.
30 dias para pagar a tarifa
Se passar por um pórtico free flow sem TAG ou app cadastrado, você tem 30 dias corridos contados da data da passagem para pagar a tarifa pelos canais oficiais da concessionária responsável. Regra fixada pela Resolução Contran 1.013/2024. Se o último dia cair em sábado, domingo ou feriado, o vencimento prorroga para o próximo dia útil.
Vale também ter em mente que durante a anistia em vigor (até 16/11/2026), a multa do art. 209-A está suspensa, mas a obrigação de pagar a tarifa continua. Não pagar dentro do prazo, hoje, não gera multa imediata — mas a tarifa permanece devida e pode acumular para o motorista que viaja muito.
Em resumo
Quatro decisões antes de pegar estrada. Qual meio de pagamento adotar (TAG, app, Pix avulso ou cabine, dependendo do perfil). Conhecer o trajeto e identificar os trechos free flow no portal oficial da ANTT. Preparar o veículo, a placa e os documentos. Ter clareza sobre os prazos de pagamento e a anistia em vigor.
O capítulo Na estrada traz o que acontece quando o veículo cruza um pórtico. O capítulo Depois da passagem detalha os caminhos de pagamento e regularização.
Fontes e leituras recomendadas
- ANTT — Página institucional sobre Free Flow: portal oficial com lista atualizada de rodovias em operação.
- Resolução ANTT nº 6.079/2026 — estabeleceu obrigatoriedade de múltiplos meios de pagamento.
- Resolução Contran nº 1.013/2024 — Senatran: prazo de pagamento de 30 dias e padronização de sinalização.
- Lei nº 14.157/2021 — Planalto.gov.br: autorização do sistema de cobrança eletrônica em livre passagem.
- ABCR — Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias: dados setoriais sobre operadoras e rodovias.